Como continua a ser comovente recordar as visitas à mercearia onde as mulheres se juntavam para comentar os eventos do dia, cheirar a sardinha salgada ou depenicar nos torresmos e no queijo cortado as fatias e cujo perfume inundava o lugar diluindo-se nos aromas do vinho de cheiro do outro lado onde os homens sorviam os calzinhos e os meios.
A história das trocas comerciais é uma das mais fascinantes da humanidade. Perde-se no tempo. Da proto – moeda às trocas virtuais; Do ocre – vermelho aos cartões de crédito. A evolução da sociedade e as relações entre povos e indivíduos está intrinsecamente ligada ao comércio e à moeda.
Para muitos dos imigrantes de primeira geração, a moeda foi um bem raro e precioso. A maioria das relações comerciais na aldeia fazia-se através da troca de produtos: trocava-se batatas por ovos, manteiga de porco por couves, sal por farinha, açúcar por milho.
Quem possuía determinados produtos da terra (nomeadamente a couve, as uvas, a batata) costumava pendurar à porta de casa a espécie que produzia para venda.À parte destes comerciantes de ocasião existiam as mercearias, que ainda hoje sobrevivem nas freguesias açorianas, embora cada vez em menor número e mais descaracterizadas. A mercearia do Senhor José Louro era das poucas coisas que alegrava os sábados do número 28 na rua 24 de Agosto no Pico da Pedra. O sábado trazia para mim e, para muitas outras raparigas da rua, uma obrigação à qual ninguém podia fugir: faze
Se é bem verdade que feitas as limpezas restava ainda a casa da Eduarda do Gabriel da Felicidade para a brincadeira, não é menos verdade que até lá não havia outro remédio senão lavar, varrer, mudar a roupa das camas, limpar o pó e sacudir os tapetes.
Mas depois dos afazeres domésticos e, antes da casa da Eduarda ficava sempre a mercearia do José Louro, uma viagem ao fim do mundo, aquele que aos 12 anos era o meu Universo: a Norte o mar das Calhetas a perder de vista confundindo-se com o céu, a Sul o Monte do Sr. João Luís da Câmara beijando descaradamente as nuvens. O horizonte começava e acabava naqueles dois muros insuperáveis: de um lado o oceano do outro a serra. Perto ficava então o cosmos da mercearia do Senhor José Louro.
Chegava sempre com o dinheiro bem contado: o suficiente para o «mandado» e, um «pirolito» ou um gelado. A mercearia estava (já não está pois nela foi recentemente construída uma residência) situada na esquina da rua do Alecrim. Ao começar o dia, o Senhor José Louro colocava à porta uma cortina de delgadas fitas de plástico coloridas, que durante o Verão impedia a entrada de moscas e do sol. A porta da loja era azul de madeira, encimada por uma portinhola de pequenas janelas. O interior estreito era suficiente para três ou quatro pessoas, que à vontade podiam ficar à conversa. Passavam o tempo com um dos cotovelos no balcão e, uma das mãos segurando a saca de trapos para as compras. De tempos a tempos deitavam a cabeça por entre as fitas espreitando o mundo da rua do Alecrim. As paredes no interior da mercearia estavam cobertas de armários de vidro, pintados de um amarelo velho. Neles se guardavam os produtos da mercearia: as massas, os doces, as bolachas Maria da Moaçor, condimentos, latas de sardinha e atum, sabão branco e azul, o clarim, linhas, agulhas de renda e de máquina, botões. E eu perdia-me rebuscando com o olhar cada compartimento redescobrindo produtos, descortinando outros.
Os cheiros misturavam-se: o bacalhau, o queijo cortado aos centavos, o fermento de padeiro, o coalho, os alhos e cebolas, o álcool, o petróleo para os candeeiros. Um festim de aromas inundava a minha curiosidade. À entrada e, junto a uma das paredes ficavam as sacas de lona contendo feijão, favas, tremoços e ainda batatas e inhames, milho e farinhas. Ao lado a taberna, onde homens cansados e robustos, rapazes descalços e velhos jogando o dominó falavam da vida por entre «mêzinhos»e «calzinhos». E eu, com um pirolito, corria para casa, não estivesse já atrasada.
Este mini cosmo não passou despercebido ao inglês Henry Buller nas suas viagens a S. Miguel vindo de Inglaterra nas embarcações que transportavam a laranja açoriana. Em «Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas», H. Bullar menciona vários aspectos da ilha, entre eles, a mercearia.
Referindo-se nomeadamente à vida em Ponta Delgada no ano de 1838, Bullar diz: «O rés-do-chão das casas é utilizado para lojas, armazéns ou estrebarias. As lojas recebem a luz pelas portas e não têem montras. Não há aqui, portanto, aquela alegre variedade de frontarias dos estabelecimentos, como na Inglaterra. Pelas portas abertas se vêem os balcões e prateleiras com as mercadorias. (…) Mais adiante, um pequeno molhe de achas, uma réstia de cebolas, algumas cabeças de alho e duas ou três velas penduradas noutro pau, indicam uma mercearia.»
Após o 25 de Abril e a entrada de Portugal na União Europeia em 1986, a expansão comercial nas ilhas conheceu momentos de grande euforia. Os Açores recebiam novos produtos e o consumidor tornava-se mais exigente, o que para muitos justificou a completa destruição das antigas mercearias substituindo-as por estabelecimentos sem qualquer caracterização, mas que todavia proporcionavam mais mobilidade ao consumidor. Por todas as ilhas, relíquias do património imóvel português foram dilapidadas para dar lugar a estabelecimentos incaracterísticos, mas mais funcionais. E, enquanto as últimas mercearias se despedem dos anos gloriosos da vida mercantil local, as grandes superfícies comerciais vão elas também sufocando os estabelecimentos criados sobre um património, que ainda sobrevive na memória de muitos. As novas lojas vão fechando as portas enterrando consigo uma rica herança, que poderia ser uma mais valia turística para as ilhas e, para o país em geral.

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